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A construção de idiotas

Atualizado: 10 de mai. de 2023

A construção de idiotas: algumas notas sobre o processo de idiossubjetivação


Rubens R R Casara[1]


Desde o nascimento, cada pessoa passa a viver, consciente ou inconscientemente, a partir de certos princípios, regras e ideais; mais precisamente, submetido àquilo que o sujeito é levado a compreender como a verdade, a beleza e o bem. Cada sujeito é sempre o produto de uma trama que une linguagem, normas e idealizações. A linguagem sempre antecipa sentidos. Manipular ou alterar esses princípios e ideais, transformando a compreensão do que seja a verdade, a beleza e o bem, portanto, significa a possibilidade de construir um novo sujeito. Por subjetivação entende-se, justamente, o processo dirigido à construção do sujeito.


A partir de um conjunto de atos que se iniciam no nascimento, momento em que cada um de nós é lançado na linguagem, dá-se progressivamente a constituição de um sujeito. Não por acaso, o letramento é uma das etapas mais importantes da vida, com o aumento da complexidade do universo em que a criança se encontra. A linguagem nunca foi um agente neutro que adentra na intenção do ser falante, como percebeu Bakhtin, isso porque está repleta de um passado e das intenções de outros que não estão presentes no momento do ato de comunicação.


Se a linguagem sempre antecipa sentidos, também é verdade que esses sentidos podem ser alterados e manipulados pela ação humana. Mudanças na sociedade acarretam mudanças nos sujeitos e no contexto, ou seja, mudanças na tradição (valores, costumes, comportamentos e bens culturais que são transmitidos de geração em geração) e na racionalidade hegemônica (o modo com que as pessoas percebem e atuam no mundo) levam a transformações no indivíduo. Por isso, como diz o poeta Leonardo Tonus, “todo brasileiro traz na alma de seu corpo a sombra de um indígena ou de um negro morto”.[2]


Esses atos que constituem o sujeito também levam à sujeição. A etimologia da palavra “sujeito” não deixa dúvida: ela deriva do latim subjectus e serve para designar aquele que se submete ou é subordinado a alguém ou a algo. O processo de subjetivação não produz apenas subjetividades, leva também necessariamente a um quadro de submissão, nem sempre consciente.


Diante da multiplicidade de formas de subjetivação, a questão passa a ser: que tipo de subjetividade se pretende criar? Ou, ainda, em que base é construía a sujeição (e a dominação) das pessoas? A sujeição é um fenômeno complexo e multifacetado. Tem-se a sujeição pelo medo ou pelo convencimento, pelo mito ou pela ciência, pelo conhecimento ou pela ignorância, para citar alguns poucos exemplos.


A dominação sempre precisa ser justificada por ideias e teorias. Todavia, quanto maior a opressão e maiores os absurdos que se originam do funcionamento normal de um dado regime político-econômico, mais difícil se torna justificar esse estado de coisas e legitimar a exploração. Adorno e Horkheimer[3] já advertiam que confundir a verdade de uma teoria com a sua fecundidade é um erro. Diante desse quadro, tornou-se necessário mudar a estratégia de justificação. Para tanto, e cada vez com mais frequência, foi preciso encerrar a questão do passado e negar a história, sempre que os fatos se tornavam um obstáculo à dominação e ao exercício do poder de uns sobre outros. O desconhecimento e/ou a distorção da história tornaram-se fundamentais à manutenção da dominação, da exploração ou mesmo de fenômenos como o neocolonialismo.


No lugar de melhorar os argumentos e as justificativas apresentadas, investindo na ciência e na educação crítica voltada à emancipação, passou-se a optar por diminuir a capacidade de compreensão do absurdo, da história e das condições materiais que levam à dominação e à exploração da maioria por uma minoria que detém o poder político e/ou econômico. O pensamento reflexivo tornou-se um inimigo. Nesse sentido, investiu-se na diminuição das exigências para o convencimento e a formação de consensos. A “verdade”, a “liberdade”, o “belo” e o “bem”, por exemplo, foram ressignificados; perderam importância e acabaram reduzidos no imaginário popular a valores negociáveis quando não descartáveis.


Por evidente, essa produção de “desconhecimentos”, “conhecimentos parciais” e “equívocos” conta com a participação dos sujeitos a ela submetidos. Esses sujeitos se submetem, mas são também agentes ativos desse processo. É reconfortante “não saber” e “não se responsabilizar” pelo que acontece, sempre que o ocorrido se insere na esfera do indizível ou do profundamente desagradável.


Busca-se a produção de sujeitos idiotas. A idiotice é a postura, por excelência, do sujeito neoliberal, que atua egoisticamente a partir de cálculos de interesse que visam exclusivamente ao lucro ou à obtenção de alguma vantagem pessoal. Nada que não é negociável interessa ao idiota.


Na busca por lucro, o pensamento reflexivo e a inteligência acabam por se tornar obstáculos. No ambiente capitalista, radicalizado na fase neoliberal, a contradição “que consiste na estupidez da inteligência é uma contradição necessária. Pois a ratio burguesa tem que pretender a universalidade e, ao mesmo tempo, desenvolver-se no sentido de restringi-la”.[4] Uma pessoa deve ser inteligente na medida em que sirva aos interesses dos detentores do poder econômico. Mas, esses mesmos interesses vão levar essa mesma pessoa a se portar como uma idiota sempre que necessário ao processo de acumulação do capital. Pode-se, inclusive, admitir a hipótese de que a idiossubjetivação reorganiza a personalidade do indivíduo, alterando a relação com o conhecimento, com o tempo, com a identidade, com a cultura e com o projeto da modernidade.


Por idiossubjetivação compreende-se, portanto, esse processo de formatação de sujeitos que tem por objetivo a construção de indivíduos egoístas, incapazes de reconhecer a importância da coletividade e que negam a possibilidade de uma esfera comum, isto é, que diga respeito a todos. A raiz etimológica da palavra idiota vem do grego idios, que significa “privado”, “sem compromisso com a vida pública”, “fechado em si”. Os idiotes eram, desde a Grécia, aquelas pessoas incapazes de um trabalho coletivo, do reconhecimento do comum ou de uma atuação pública. A polis nunca foi objeto de atenção do idiota. A política é um fenômeno ligado ao coletivo; o idiota, por definição, alheio ao coletivo, é um ser político que detesta a política e tende a não compreender o uso político que dele é feito.


Idiotas, portanto, são as pessoas que abdicam de projetos coletivos ou ações políticas voltadas ao bem comum, isso porque são detentores de uma subjetividade empobrecida que interdita o pensamento reflexivo e que os leva a atuar exclusivamente a partir de cálculos de interesse que visam à obtenção de vantagens pessoais. É essa subjetividade empobrecida que impede a reflexão sobre os fenômenos que se apresentam e, ao mesmo tempo, inviabiliza qualquer ação transformadora. O idiota é forjado para acreditar que não deve ter compromisso com a vida pública ou com os problemas de terceiros, que inexistem alternativas ao modo de pensar e às formas de dominação hegemônicos. O dado é percebido, em razão do processo de idiossubjetivação, como imutável ou como a obra de um poder superior e incontrastável.


O marco normativo do neoliberalismo, vale lembrar, é a ilimitação, o que faz nascer uma espécie de “vale tudo” na busca por lucro ou vantagens pessoais. A idiossubjetivação aparece, portanto, como efeito e, ao mesmo tempo, como condição necessária à hegemonia e à manutenção do modo de pensar e agir neoliberal, que se caracteriza por tratar tudo e todos como objetos negociáveis, a partir de cálculos de interesse voltados à obtenção de lucro e/ou vantagens pessoais tendencialmente ilimitados.


Trata-se, pois, de um mecanismo que atende aos detentores do poder econômico, interessados em sustentar o mundo neoliberal. O processo de idiossubjetivação inclui muitas estratégias e dispositivos, tais como a negação/recriação da história, os diversos negacionismos, a propaganda, as campanhas de lei e ordem, a indústria cultural, a regressão da audição e o empobrecimento da linguagem. Mas não é só. Há o perigo de que esses mecanismos de modificação da subjetividade desumanizem parcela da sociedade: os indesejáveis aos olhos dos detentores do poder econômico.


Ao demonizar valores como a solidariedade, a fraternidade e a empatia, percebidos a partir da racionalidade neoliberal como fragilidades em meio à concorrência, acaba-se por naturalizar a fome, os tratamentos desumanos, o encarceramento em massa da população pobre (e dos inimigos políticos) e, em casos limites, o extermínio a partir de cálculos de interesse (nada muito diferente do que aconteceu no holocausto nazista). Aceitar o absurdo, de genocídios a mortes evitáveis em uma pandemia, é um quadro que costuma ser precedido pelas táticas de idiossubjetivação.


Essas táticas também são as responsáveis pelo aumento das hipóteses de dissonância cognitiva, ou seja, da tensão interna ao sistema de pensamento, crenças, emoções e atitudes (cognições) de uma pessoa sempre que algum desses elementos cognitivos entra em contradição com os demais. Isso porque os processos de mutação da subjetividade necessários à hegemonia da racionalidade neoliberal fabricam e prestigiam crenças e comportamentos que, do ponto de vista lógico, se encontram em oposição aos interesses do agente, o que levará ao abandono do pensamento reflexivo, à desconsideração das emoções ou à invenção de narrativas que criam uma conciliação aparente como estratégias de redução do desconforto gerado pela contradição.


Como se percebe, a idiossubjetivação leva à antipolítica: uma postura política contra a “política”. Nesse particular, as pessoas são subjetivadas para não acreditarem que têm a opção de mudar a sociedade. A imagem neoliberal da política é construída como algo “sujo”, “corrupto”, do qual o indivíduo deve se afastar pois, como reza o lema neoliberal, “não há alternativa possível”. A antipolítica é construída de baixo, quando os cidadãos são levados a não se interessar e nem atuar politicamente, e de cima, sempre que os políticos profissionais se apresentam como atores antissistema, como “não-políticos” ou “técnicos” (gestores), na busca por simpatia popular em razão da aversão construída em relação à atuação no campo coletivo. Dentre as diversas estratégias de idiossubjetivação que visam a naturalização da antipolítica, destacam-se as de gerar divisões artificiais na população (por vezes, recorrendo à idéia de identidade), de produzir/potencializar o ódio e de investir em dispositivos que levam ao esgotamento físico e emocional do cidadão, inviabilizando que se ocupe de assuntos públicos e que atue na pólis.


A idiossubjetivação permite a manipulação da democracia e das ações humanas em um determinado contexto, fazendo com que, por exemplo, o governo “de” e “para” uma minoria acabe percebido como um governo de e para o povo. A própria percepção sobre o conceito, os limites e os fins da democracia sofre uma alteração profunda. Para alguns, a democracia volta a possuir uma dimensão meramente formal, que se identifica apenas com a possibilidade de pessoas votarem em outras pessoas na formação de um governo, enquanto que outros reduzem o ideal democrático ao estabelecimento de um “mercado de ideias”, no qual os princípios, as regras e os valores se tornam negociáveis a partir de cálculos de interesse. Sob a égide da racionalidade neoliberal, o mercado de ideias direciona-se exclusivamente ao lucro, enquanto os “representantes do povo” servem, na realidade, aos interesses das grandes corporações e dos detentores do poder econômico (que, muitas vezes, formatam e patrocinam as candidaturas dos políticos no âmbito da democracia representativa).


Mas não é só. A idiossubjetivação também dificulta a percepção dos problemas que atingem o coletivo. Assim, o capitalismo, produzindo as condições para a sua expansão, segue destruindo as condições de vida no planeta, sem que as pessoas sejam capazes de refletir sobre isso. A evidente incompatibilidade entre a ilimitação neoliberal e a limitação de recursos naturais acaba ignorada. A idiossubjetivação liga-se, ainda, à produção de um efeito ilusório que atende àqueles que, em interesse próprio, sustentam que as massas populares são incapazes de julgar corretamente e decidir o que fazer com a “coisa pública”.


Em outras palavras, a idiossubjetivação parte da premissa de que os cidadãos bem informados, críticos e inconformados representam um obstáculo à manutenção do projeto neoliberal e aos interesses dos detentores do poder econômico, bem como uma ameaça em potencial àqueles que exercem o poder político. O empobrecimento subjetivo, necessário à naturalização e à perpetuação das mais variadas opressões, se dá em todas as classes e nos mais variados espectros políticos. Idiotas, inocentes ou não, sempre foram úteis àqueles que pretendem dominar e/ou explorar outros seres humanos. A manipulação, distorção e apresentação parcial de fatos, bem como a formação deficiente de consciências, através de técnicas (postas em atuação em propagandas, filmes, mudanças curriculares, programas de rádio e televisão, etc.) que produzem metamorfoses na percepção do público a elas submetido, são fundamentais para manter uma minoria em posição de explorar a maioria. Fatos essencialmente prejudiciais à maioria são apresentados como positivos ou associados a coisas que o público é incapaz de deixar de desejar: a crença de que o pobre explorado pode se tornar o próximo rico explorador a partir de seus próprios méritos, por exemplo, só é possível diante do apagamento da percepção de que as condições materiais, em concreto, impedem a superação da condição de explorado.

[1] Pós-doutor em Ciência Política pela Universidade Paris Nanterre (Paris X), doutor em Direito e mestre em Ciências Penais. Professor universitário, psicanalista e juiz de direito do TJRJ. Autor de vários livros e artigos publicados no Brasil e no exterior. [2]TONUS, Leonardo. Diários em mar morto. São Paulo: Folhas de Relva, 2021. [3] ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar,1985, p.228. [4] ADORNO, Theodor; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento. Rio de Janeiro: Zahar, 1985, p. 196.

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