O livro da vida
- Da Vinci Livros

- há 8 horas
- 4 min de leitura
Daniel Louzada
Há dez anos, no primeiro dia de setembro de 2016, a Leonardo da Vinci reabria suas portas. Após seis meses de reforma, quatro deles com funcionamento provisório em uma pequena loja em frente ao seu endereço histórico, no subsolo do edifício Marquês do Herval, a velha livraria voltava. Não, a Da Vinci não fechou.
Uma década pode parecer pouco para uma livraria que, também em setembro, completa 74 anos. Fundada em 1952, em uma sala do edifício Delamare, na avenida Presidente Vargas, e instalada desde 1956 no Marquês do Herval, a Da Vinci assistiu o mundo, a cidade e a atividade livreira se transformarem. Ela mesma passou por crises que pareceram definitivas, um incêndio, uma pandemia; e mudou para continuar. Na avenida Rio Branco, construída e destruída tantas vezes na busca tão brasileira por ser outro país, a Da Vinci é uma sobrevivente em meio ao que poderia ser descrito como um imenso cemitério de livrarias perdidas, o centro do Rio.
Nesse período, o Brasil não facilitou as coisas. Atravessamos uma das épocas mais trágicas da nossa história e mantivemos a escolha de tratar dos problemas do país quando seria mais confortável apenas vender livros. Resistimos a assédios, ameaças, difamações e ao anti-intelectualismo desabrido.
Houve também outro tipo de pressão, menos espetacular: a do nivelamento. É certo que, para sobreviver, fizemos mudanças, como não importar livros, acabar com a arquitetura labiríntica e ter um café, o que tornou o ambiente um pouco ruidoso. Mas a lógica dominante no comércio é ainda mais dura: trabalhe com “o que vende”, fale a mesma linguagem, exponha as mesmas editoras, priorize os mesmos lançamentos, reduza a experiência ao consagrado. Cometemos erros, mas continuamos apostando em uma livraria com profundidade de acervo, que desafie seus frequentadores com as sugestões que faz e que participe das discussões do seu tempo.
Independência não é só uma palavra bonita; significa também insistir que preço não é a única medida das coisas, sobretudo em um mercado em que corporações estrangeiras vendem abaixo do custo, concentram setores inteiros, capturam fornecedores, recolhem dados e depois dizem que isso se chama conveniência e que o livreiro, veja só, é um comerciante ganancioso. Afinal, que tipo de cidade existiria sem livrarias e sem o comércio local? Uma grande e inóspita farmácia onde mercadorias chegam com “frete grátis” pelas mãos de um trabalhador superexplorado?
Se os números dizem alguma coisa sobre essas escolhas, nestes anos foram cerca de 1.200 eventos, debates, lançamentos, encontros e feiras em torno de ideias, autores e editoras. Mais do que um ponto de venda, a Da Vinci se tornou um centro cultural que criou uma agenda própria. Em 2021, abrimos a Da Vinci Livros, editora focada no pensamento crítico, nas ciências sociais e na história. A editora já conta com 21 títulos, tem programados outros quatro até o final de 2026 e vem construindo um catálogo bem cuidado e relevante para o nosso tempo. Além disso, em 2024, criamos o podcast Subsolo, que ampliou o universo da Da Vinci para outros públicos.
Nenhum número retrata o principal, entretanto. Quantas pessoas se encontraram aqui? Quantos autores viram, orgulhosos, os seus livros expostos? Quantas loucas paixões nasceram e morreram à sombra dos clássicos e dos livros circunstanciais? Quantos leitores, distraídos, descobriram o livro da sua vida na Da Vinci? Na pandemia, passei sozinho por muitas semanas na livraria fechada e sei que os livros, apesar de todos os poderes mágicos que atribuímos a eles, não bastam. Sem gente, uma livraria é um lugar triste.
Por tudo isso, apenas sobreviver não pode ser o objetivo de uma livraria. A palavra “resistência” foi usada tantas vezes que parece reduzir as livrarias a uma espécie em extinção a ser preservada por caridade. Essa me parece uma ideia ruim. Uma livraria não existe para representar um mundo perdido, tampouco para funcionar como templo de iniciados que se reconhecem e se fecham ali. Tanto o elitismo subjacente a essas visões quanto o nivelamento por baixo em nome do “comercial” negam a universalidade que uma livraria deve buscar.
Dona Vanna disse que a Leonardo da Vinci teria uma história, se não gloriosa, ao menos digna. No Brasil, onde o livro é condenado a justificar sua própria existência, permanecer de portas abertas já é considerado um triunfo sobre o destino. “Este pequeno espaço em um subsolo do centro do Rio não vai mudar o mundo e é melhor desistir”, me disseram. A mim, filho de uma mulher que trabalhou como faxineira a vida inteira para criar os filhos e que trazia para casa jornais e revistas jogados no lixo para eles lerem, numa casa sem um único livro, poucos desestímulos abalam. Diante da história que me coube continuar, hoje abro mais uma vez as portas da Da Vinci como quem abre o livro da vida.
*Aos dez anos da reinauguração, agradeço a todas as pessoas que apoiaram e apoiam a Leonardo da Vinci, a todos os seus trabalhadores de ontem e de hoje e a todos os que, de perto, de longe e com o coração, a amam.
Rio de Janeiro, 1º de setembro de 2026.

Comentários