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Em A construção do idiota: o processo de idiossubjetivação, Rubens Casara demonstra que o atual estágio do capitalismo reorganizou a personalidade do indivíduo, alterando sua relação com o conhecimento, com o tempo, com a identidade, com a cultura e com o projeto da modernidade.

 

Vivemos um período histórico notável pela valorização social da ignorância, o tempo do empobrecimento subjetivo. Obstáculo aos negócios e ao exercício do poder, o pensamento reflexivo é agora demonizado e a simplificação do ato de pensar passa a ser imperativa, funcional que é à reprodução ilimitada do modo de vida neoliberal.

 

Se o ataque ao pensamento não é excepcional na história, é certo que sob a hegemonia neoliberal se acentua; a racionalidade passa a se identificar com a realização de cálculos que visam apenas o lucro e a obtenção de vantagens pessoais. Ideias fundadas na razão objetiva, como justiça, igualdade, democracia e felicidade, por exemplo, sucumbem diante do horizonte delimitado por quem detém o poder econômico e o egoísmo se torna vetor interpretativo e mandamento nuclear por excelência.

 

Portadores de uma lógica binária que não admite nuances, os afetos mobilizadores da idiossubjetivação neoliberal acabam por constituir a base ideológica tanto da paródia democrática, quanto do fascismo. Naturalizada a estupidez, o indivíduo idiossubjetivado, alheio a tudo o que é comum e coletivo, valida diferentes formas de violência necessárias à acumulação do capital. Não sabe, mas faz.

 

Os efeitos desse processo são notáveis: sentimento anti-intelectual, desprezo à educação, desorientação generalizada, simplificação da linguagem, perda de capacidade de imaginação, narcisismo, delírio; em resumo, assistimos à derrota do pensamento. Reduzido a uma liberdade que se realiza unicamente no ato de consumir mercadorias, o sujeito neoliberal é livre para obedecer e, por consequência, para rejeitar tudo o que é comum. Se tudo é impossível de mudar, é mais crível imaginar o fim do planeta do que o fim do capitalismo, como registra a já célebre frase.

 

Manipulado nos afetos, cevado na paranoia e no culto ao medo e à punição, o sujeito neoliberal vive a mentira como simulacro de verdade incontestável. Ou, em outras palavras: tem fé na opressão como liberdade. Tudo se transforma em oportunidade de negócios para cada um, empresários-de-si e concorrentes ao modo das empresas. Daí para o outro como inimigo e para o ódio irreconciliável com a diferença é um passo. Fecha-se assim o ciclo da máquina de idiossubjetivação.

 

Diante do quadro desolador que traça, Casara busca compreender como ocorre a formatação de sujeitos idiossubjetivados, a um tempo incapazes e impotentes, que negam tanto o conhecimento como a possibilidade de uma esfera comum. Mas A construção do idiota não é um diagnóstico desencantado sobre o realismo capitalista. Antes, na melhor tradição crítica, examina o presente com radicalidade para encontrar alternativas à lógica neoliberal que leva a humanidade a reproduzir uma vida não apenas estúpida, mas profundamente infeliz.

A construção do idiota: o processo de idiossubjetivação

R$74,90Preço
  • Autor: Rubens Casara

    ISBN: 9786584972070

    Edição: 1ª

    Ano de publicação: 2024

    Páginas:  344

    Dimensões: 13,8cm x 21cm

    Peso: 0,412

    Encadernação: brochura

    Preparação: Cássio Yamamura

    Revisão: Thainá Campos Seriz, Suzete Balbinot e Elisa Balbinot Cambruzzi

    Capa: Maikon Nery

    Projeto gráfico e diagramação: Victor Prado

  • Rubens Casara é escritor, juiz de direito do TJ-RJ, mestre em ciências penais, doutor em direito e concluiu pós-doutorado em ciência política. Membro da Associação Juízes para a Democracia e do Corpo Freudiano, é autor de livros como O Estado pós-democrático: neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis (Civilização Brasileira), Sociedade sem lei: pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie (Civilização Brasileira), Bolsonaro: o mito e o sintoma (Contracorrente), Contra a miséria neoliberal (Autonomia Literária), Mitologia processual penal (Saraiva) e Processo penal do espetáculo (Tirant Lo Blanch), entre outros.

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