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A mão amiga das ditaduras - A Igreja da Unificação e os governos autoritários latino-americanos

Rodrigo de Sá Netto*


(Este texto é uma parte modificada de O partido da fé capitalista, livro que a Da Vinci lançará em 2024)


Antonio Gramsci acreditava haver uma continuidade complementar entre o que comumente chamamos de governo e sociedade civil, que, imbricados, originariam um Estado ampliado. Sendo assim, também na dimensão das organizações particulares desdobram-se relações de poder que travam com a burocracia estatal uma relação de reforço mútuo, daí a continuidade entre ambas.


Esse Estado ampliado, instância indispensável do poder classista nas democracias modernas, é sustentado sobre doses calculadas de consenso e força, cada qual se remetendo em maior grau a uma de suas facetas. Assim, caberia o desempenho da força sobretudo aos órgãos governamentais, sob a forma de um “domínio direto”. Mas como esse domínio não prescinde de legitimação ideológica, precisa ser ministrado em porções mais ou menos equivalentes a intervenções dedicadas à produção do consenso, realizadas principalmente ao nível dos “chamados órgãos da opinião pública”, como jornais e associações diversas, inclusive as igrejas.


Entre estas últimas, a Igreja da Unificação talvez seja o exemplo mais explícito de organização religiosa dedicada a reforçar o consenso em torno de ideias interessantes à classe dominante. Da mesma forma, é também evidente a relação de complementaridade entre a função político-ideológica da Igreja e a, mormente repressiva, dos Estados autoritários latino-americanos, entre os quais me concentrarei no brasileiro.


A relação de cumplicidade entre a Igreja, que passa a frequentar o ambiente latino-americano com maior intensidade em finais dos anos 1970, e os governos da região, especialmente as ditaduras, encontra-se documentada pelos arquivos dos serviços de vigilância do Estado brasileiro, franqueados pela Lei de Acesso à Informação de novembro de 2011. O sigilo que sempre envolveu as atividades da Igreja, entretanto, permanece nos dias atuais, razão pela qual o recorte cronológico superior deste artigo será o final da década de 1990, a partir de quando as fontes documentais tornam-se escassas.


A Igreja da Unificação


Atualmente denominada Federação Familiar para a Paz Mundial e a Unificação, a Igreja da Unificação, ou “Seita Moon”, é uma entidade ideológica e religiosa fundada na Coreia do Sul em 1964 pelo ex-militar e empresário Sun Myung Moon. Teologicamente, assenta-se sobre os escritos de Moon, autoindicado messias, como o livro Princípio Divino, enquanto, em termos ideológicos, caracteriza-se por um pronunciado anticomunismo, materializado em campanhas globais reunindo empresários, políticos, intelectuais e religiosos conservadores, realizadas por várias organizações subsidiárias.

Nas décadas de 1970 e 1980, a Igreja alcançou todo o mundo, fazendo do continente americano importante base. Não se destaca, contudo, pelo grande número de seguidores, provindo sua influência sobretudo de aproximações com a classe dominante dos países em que se instala e de atividades doutrinadoras, para tanto se valendo de recursos amealhados por várias atividades empresariais nas quais tem participação e por doações, conseguidas com um agressivo proselitismo. Assim, conforme Danny Levitas, advogado no Center for Democratic Renewal, apesar de manter apenas poucos milhares de seguidores nos Estados Unidos, a Igreja exerceria ali uma “profunda influência”, tendo comprado parte da “máquina política e intelectual” da direita cristã.


Fora das Américas, sabemos por matéria do New York Times, por exemplo, que já em 1994 os “moonitas” espalhavam-se “por toda a antiga União Soviética”. Relatório sobre a Rússia, elaborado pela Comissão sobre a Liberdade Religiosa Internacional dos Estados Unidos, traz informações mais recentes. Segundo o papel, circulara na imprensa russa em 2002 um relatório governamental, intitulado “Sobre o melhoramento das medidas para responder ao extremismo religioso na Federação Russa”. Documento que traduzia a preocupação do governo Putin com grupos de fé estrangeiros e seu “extremismo religioso”. Especificamente, acusavam-se os Testemunhas de Jeová e a Igreja da Unificação de infiltração nas forças armadas e na polícia a fim de colherem informações e espalharem sua ideologia.


Já nos dias de hoje, o assassinato do ex-primeiro ministro Shinzo Abe, em julho de 2022, chamou atenção para a possível infiltração dos unificacionistas entre a cúpula da sociedade japonesa. A motivação alegada pelo assassino, Tetsuya Yamagami, seria a ruína econômica de sua mãe, que doara suas posses para a Igreja, cujas operações Yamagami acredita terem sido facilitadas por Abe. Ainda que a alegação permaneça sem comprovação, o ex-premiê teria, de fato, conforme matéria da BBC (SHINZO Abe: o que é a Igreja da Unificação, do reverendo Moon, citada por assassino de ex-premiê do Japão para cometer crime, 2022), participado como palestrante de um evento patrocinado pelos unificacionistas.


A América Latina sob a mira unificacionista


Na América Latina a presença unificacionista remonta aos finais da década de 1970, reproduzindo a estratégia de aproximação com militares e setores sociais influentes. No Brasil, onde, ainda conforme a BBC, em finais do século XX a Igreja controlaria vastos territórios na fronteira com o Paraguai, há comprovação documental sobre tais esforços desde os anos finais da ditadura.

Em dossiê de 1981, o Serviço Nacional de Informações - SNI notava que o movimento anticomunista liderado pela Igreja vinha “recebendo adesões nos países onde está se infiltrando, inclusive nas Forças Armadas e nas estruturas governamentais”. Concluía o Serviço que o movimento mantinha “tentáculos” por todo o planeta e um poderio econômico “bastante grande”.


Em outro papel, de março de 1984, o SNI registrou que as atividades da Igreja ao Sul dos Estados Unidos foram precedidas de contatos com representações diplomáticas latino-americanas, “inclusive a brasileira”. Posteriormente, a Igreja abriu filiais “em países em que as Forças Armadas exerciam maior influência”, inicialmente no Chile e na Argentina, embora não tenha alcançado maior prestígio ali, “possivelmente pela forte oposição católica que encontraram em suas Forças Armadas”. Em outros lugares, porém, o sucesso foi maior. Na Bolívia, “conquistou favores do então Governo do General Luís Garcia Meza, para implantação de uma estação de rádio e televisão”, no Paraguai realizou cursos de anticomunismo em diretórios do Partido Colorado, graças a “certa influência” com o ditador Alfredo Stroessner, enquanto em Honduras um dos seus mais importantes adeptos seria o chefe das Forças Armadas, general Gustavo Alvarez Martinez. Mostrou-se especialmente acolhedora a ditadura uruguaia, onde “diversos militares estão envolvidos nas atividades da seita”, que escolheu o país como base, para isso também contribuindo a facilitação de remessas de lucros pelas leis locais.


Atividades doutrinadoras na América Latina


De acordo com a embaixada brasileira em São Domingos, em outubro de 1983 ocorreu na República Dominicana um seminário da Confederação de Associações para a Unificação das Sociedades das Américas - CAUSA Internacional, fundada pela Igreja em 1980 em Nova Iorque, e famosa pela realização de reuniões anticomunistas pelo mundo. O encontro ocorreu num complexo turístico da Gulf and Western Corporation, que dominava um terço da produção açucareira do país, recebeu duzentas pessoas e foi presidido pelo coronel Bo Hi Pak, um dos principais articuladores das atividades anticomunistas da Igreja na América Latina. Em ofício, o embaixador brasileiro Nestor Luiz F. B. dos Santos Lima repassava informações da imprensa local dando conta de que também ali a Igreja procurava se instalar valendo-se do seu poder econômico, usando como “pretexto” a compra de um hotel.

O informe está num dossiê da Divisão de Segurança e informações - DSI do Ministério das Relações Exteriores - MRE, que fala ainda de um evento em Montevidéu em fevereiro de 1984, a I Convenção Pan-americana da Causa Internacional. Conforme a embaixada brasileira, os organizadores, em entrevista à imprensa, tentaram camuflar sua proximidade com o governo uruguaio, refutando o vínculo com a CAUSA do ex-comandante-em-chefe do Exército, Luís Vicente Queirolo, um dos principais articuladores da Operação Condor, sobre quem “circularam rumores de que teria facilitado a entrada de capitais da seita”. Segundo matéria do Jornal de Brasília incluída no dossiê, o presidente da CAUSA uruguaia seria Julian Safi, por muitos anos porta-voz oficial da ditadura, e o vice-presidente sogro do ditador Gregorio Álvarez.


Já o Centro de Informações da Marinha - CENIMAR confirmava o Uruguai como base unificacionista no Sul, frisando que a CAUSA pretendia irradiar, a partir dali, uma campanha anticomunista, “aproveitando a sua forte influência na área militar e na estrutura governamental”. Sobre a Convenção, dizia-se que a “delegação brasileira” foi composta por 45 pessoas, entre religiosos, acadêmicos, funcionários estatais, militares, jornalistas e empresários. Alguns presentes foram Cid de Albernaz Oliveira, professor da Escola Superior de Guerra - ESG; Josué Alves Ribeiro Chagas, oficial do Exército; Aécio Falvio Silveira Coutinho, coronel da Polícia Militar; Hermógenes Coelho Júnior, diretor do Departamento de Estradas e Rodagem de Goiás; Ari de Cristian, Major do Exército; Rubem José Ferreira, coronel da Polícia Militar, e dirigente da CAUSA no estado; Anésio de Lara Campos Júnior, presidente da Ação Integralista Brasileira; Lino Rocha, jornalista e assessor de imprensa do governo de Pernambuco; Mário de Mari, empresário e presidente do Movimento Brasileiro de Alfabetização - MOBRAL em Curitiba; e Nuno Linhares Veloso, professor da ESG. Assistido por indivíduos das duas Américas, o evento, cuja lista de participantes figura em documento do Centro de Informações do Exterior – CIEX, foi brindado também por norte-americanos. Entre eles o brigadeiro-general Robert Richardson II; Philip Sanchez, presidente da Woodside Inc. e ex-subsecretário de Estado; Cleon Skousen, da John Birch Society, associação anticomunista e ultraliberal; David Sullivan, assistente legislativo do Senado; e o comandante da Marinha Lloyd Bucher.


Em julho de 1985 seria a vez do Brasil receber a II Convenção Pan-americana da CAUSA Internacional, no hotel Maksoud Plaza em São Paulo, com a presença especial dos terroristas membros da organização Comandos L, responsável por atentados em Cuba, Antonio Cuesta del Valle e Anthony Garnet Bryant.

Entre os palestrantes, tomaram o microfone alguns membros de governo, como Carlos Augusto Noriega, ministro colombiano; Amilcar Santamaria, secretário de Comunicações Internacionais de Honduras; Osvaldo Alvarez Paz, deputado venezuelano; Edward Perry, senador norte-americano; e o diplomata brasileiro José Oswaldo de Meira Penna.

Já a plateia teve a presença de outros agentes estatais, como Dario Miranda, adido comercial da Bolívia; Daniel Sossa Miranda, primeiro-secretário da embaixada do Peru; Fernando Zocco, assessor parlamentar da Assembleia Legislativa; Gilberto Flávio de Azevedo Lima, assessor parlamentar na Câmara Federal; os deputados federais pelo PDS Adail Vettorazzo e Bonifácio José Tamm de Andrada; os deputados estaduais no Maranhão pelo PDS e MDB Aluízio de Abreu Lobo e Valdivino Diniz Castelo Branco; Hélio Pereira de Rezende, ex-deputado estadual pela Arena; Jesus Trindade Barreto, deputado estadual em Minas Gerais pelo PDS; João Correia de Freitas, assessor técnico da área social do governo de Minas Gerais; Luiz Augusto da Silva Cabral, assessor de imprensa da Secretaria de Estado de Minas Gerais; Moupir Amaral, chefe do Gabinete Superior da Polícia Federal; Rochilmer Mello da Rocha, membro do Tribunal de Contas de Rondônia; Bertolino de Oliveira Neto, delegado e presidente da Comissão de Controle e Aviação da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra; Antônio Carlos Costa Moreira da Silva, delegado da Polícia Federal, promotor e procurador da Fazenda Nacional; Benedito Honório da Silva, assessor chefe da Assessoria de Segurança e Informações do MEC e assistente da Procuradoria Geral da Paraíba; Edilaudio Luna de Carvalho, professor e chefe da Assessoria de Segurança e Informações da Universidade Federal da Paraíba; José Adalberto Targino Araújo, promotor de Justiça; e José Salles Pontes, assessor do governo federal junto à Casa Militar.


Militares brasileiros também apareceram na figura de José Leopoldino e Silva, tenente-coronel da reserva; Antonio Leite de Araújo, general da reserva; José Lopes Bragança, general de divisão; Rubens José Ferreira, coronel da reserva da Polícia Militar de Minas Gerais; Gustavo Adolpho Engelke, capitão-de-mar-e-guerra; José Farias de Souza Filho, capitão da Polícia Militar na Paraíba; Marcílio Pio Chaves, coronel da Polícia Militar na Paraíba; e Cesar Augusto Soares de Souza, capitão de fragata. Além deles, apareceram cidadãos de outros 22 países, sobretudo latino-americanos. Sua identificação, infelizmente, não é possível, pois seus primeiros nomes aparecem abreviados no relatório do SNI. O Jornal do Brasil, contudo, em matéria anexa em dossiê da DSI do MRE, listou outros presentes não mencionados pelo Serviço. Eram eles os deputados do PFL e PDS Herbert Levy e Sebastião Curió de Moura, o major Curió, acusado de graves violações de direitos humanos.


A despeito do destaque da CAUSA, as atividades da Igreja no Cone Sul se desdobraram em ainda outras organizações paralelas, como a Associación Pro-Unidad Latino-Americana - AULA, criada em 1983 e chefiada pelo diplomata colombiano José Maria Chaves. Acrescentava o SNI que ex-presidentes latino-americanos, como o colombiano Belizário Betancourt e o venezuelano Luís Herrera Campins, eram alguns dos seus membros. Outras importantes entidades indicadas foram o International Security Council; a CAUSA Ministerial Alliance; e a Associação Mundial dos Meios de Comunicações.


As ações doutrinadoras envolvendo latino-americanos, todavia, não se limitaram aos limites do continente. Sob o patrocínio da News World Communication, controlada pelo reverendo Moon, em outubro de 1982 aconteceu a V World Media Conference, em Seul. Teve o evento a presença, como veremos à frente, de três brasileiros ligados à ditadura, além de 270 pessoas de 74 países. Segundo matéria do The Korea Herald, constante num dossiê da DSI do MRE, o tema da conferência foi “Problemas Sociais e Valores na Mídia”, visto sob um prisma anticomunista. Alguns dos presentes foram o diplomata norte-americano, Douglas MacArthur II; o francês Jean-François Revel, ex-editor da revista L'Express; Enrique Altamirano, Editor do jornal Diario de Hoy e fundador do Instituto de Estudos Sociais e Econômicos Salvadorenho; Ron Ben-Yshai, âncora de jornal israelense; Kioschi Nasu, diplomata japonês; o escritor peruano Mario Vargas Llosa; Lloyd M. Bucher, capitão da Marinha dos Estados Unidos; o general John K. Singlaub, chefe das forças estadunidenses na Guerra da Coreia e presidente da organização direitista World Anti-Communist League; o ex-vice-presidente do Vietnã do Sul Nguyen Cao Ky; Misael Pastrana Borrero, ex-presidente da Colômbia e Lucia Pinochet, filha do ditador chileno Augusto Pinochet.


A Igreja da Unificação no Brasil


A exemplo do caso norte-americano, onde a Igreja da Unificação manteria influência desproporcional aos seus pequenos números, o mesmo aconteceu no Brasil, introduzida em 1975, segundo dados do SNI, de maneira rápida e organizada. Em 1977 teria pouco mais de cem membros, número que sobe para 1.500 em 1979, concentrados em São Paulo, Porto Alegre, Curitiba e Vitória. Mas os unificacionistas procuraram fundar células por todo o território, havendo no mesmo ano um representante nas capitais do Norte e Nordeste. Ainda em 1979, revela o SNI que a Igreja formava 120 missionários para dirigir os negócios brasileiros. Já em 1981, a revista oficial Mundo Unificado declarava haver sete mil “moonitas”. Cinco anos depois, o SNI indicava que estes já estavam em 41 cidades de São Paulo e em 17 outros estados.

Em termos geográficos, a porta de entrada foi o Rio Grande do Sul em virtude da proximidade com Montevidéu. O estado foi, portanto, uma “ponte estratégica, ligando “a sede latino-americana” “e o maior centro industrial do continente, o Estado de São Paulo”. Após experimentar dificuldades em princípios dos anos 1980, um segundo esforço de infiltração acontecia em meados da década, sob a insuspeita nomenclatura da CAUSA Brasil, cujos líderes inicialmente negavam qualquer conexão com a Igreja da Unificação. Ainda conforme o SNI, as articulações realizadas para essa segunda entrada “começaram pelo meio empresarial, após os trabalhos de prospecção de terreno para verificar a viabilidade de futuros investimentos em vários setores produtivos do Rio Grande do Sul”. Tais atividades compreendiam sobretudo aquelas com alta rentabilidade e pouco risco, havendo “predileção pelo setor financeiro”, aplicações com alto grau de anonimato, “pois são realizadas em dinheiro, não aparecendo o nome do proprietário”. Já a CAUSA, “braço econômico e ideológico” da Igreja, penetraria no meio empresarial patrocinando atividades culturais, esportivas, veículos de imprensa, restaurantes, lojas e com “investimentos industriais em estaleiros navais, fábricas de tornos mecânicos, casas de preparo de alimentação natural e outras”. Concluía o documento que em finais de 1987 os unificacionistas já estariam “trabalhando entre estudantes universitários, jornalistas, sindicalistas, empresários, profissionais liberais e funcionários públicos de todos os setores das administrações estadual e federal”. Mas a infiltração econômica da CAUSA, intensificada neste momento, retrocedia aos primórdios da década, mencionando seus dirigentes em seminário no Rio de Janeiro em 1981 “que a Organização está investindo substanciais importâncias no Brasil, com alguns estabelecimentos já funcionando, e outros em fase de projetos, como por exemplo, um grande parque gráfico no interior de São Paulo”.


Num Manual de Conferência publicado em 1985, a CAUSA revelava seus planos de crescimento. Buscava-se servir de ponto de encontro para outras entidades, como “escolas, sindicatos de operários, clubes, associações, grupos de veteranos e outros grupos patriotas”, apresentando-se como um “centralizador para encorajar seus trabalhos e fazê-los relacionarem-se uns com os outros”, costurando uma trama ideológica que “está sendo construída agora e deste modo a mensagem da CAUSA tem atingido milhões de pessoas”.

Para facilitar essa articulação, os unificacionistas contavam com suas próprias subsidiárias. Em princípios dos anos 1980, segundo a DSI do MRE, estariam em atividade a Associação Internacional para a União das Religiões, a Associação Internacional para Liberdade e Paz - AILPA e a Associação Mundial de Assistência e Amizade - AMASA, além, dessa vez de acordo com o SNI, da Associação Internacional Cultural. O DEOPS-SP, por sua vez, acrescenta a presença da Associação Internacional de Vitória sobre o Comunismo – AIVICO. Já o Centro de Informações da Polícia Federal assinalava também a Associação do Movimento da Unificação para a Salvação da Pátria - AUSP.


Em 1981, dizia o SNI que essas associações já estavam em oitenta cidades, desenvolvendo na América Latina um projeto anticomunista, sediado no Uruguai, “com coordenação nos Estados Unidos, através da CAUSA Internacional”. Em paralelo, a Igreja da Unificação manipularia “um serviço de operações com sede em Nova York, que possui agentes coreanos entre as colônias radicadas em São Paulo, Rio de Janeiro e Assunção, no Paraguai”.


Quanto aos dirigentes desse complexo de associações, em 1981 o SNI indicava o catarinense, advogado e fiscal de rendas, José Francisco Squizzato, ao lado do comerciante César Zaduski, e dos professores Waldir Cipriani e Maurício Raimundo Baldino.


Escândalos, denúncias e atividades suspeitas


O percurso inicial da Igreja da Unificação no Brasil foi conturbado, com frequentes denúncias criminais a partir de 1981, seguidas de episódios de ira popular, fatos documentados em dossiê da DSI do MRE. Entre seus anexos, há uma edição da revista Mundo Unificado, chamando holofotes para atos de violência após a transmissão de programas de TV e matérias na mídia impressa em agosto de 1981, resultando no apedrejamento de suas sedes de Belém, Teresina, Boa Vista, Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro. Atribuindo as denúncias a ‘“patrulhas ideológicas” da extrema-esquerda”, infiltradas nos veículos de comunicação, a Igreja levou o problema ao ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel.


Os serviços de inteligência da ditadura, contudo, tinham dúvidas sobre a improcedência das denúncias. No mesmo dossiê, papel da DSI do MRE de agosto de 1981 arrola indícios criminosos em todo mundo, taxando de “lavagem cerebral” os métodos unificacionistas de recrutamento, enquanto o SNI, em outro papel, dizia que o principal alvo da Igreja seria a “população menos privilegiada”, sobretudo os jovens, “cooptados a trabalhar”. Ainda conforme o SNI, ex-adeptos e parentes de seguidores registraram queixas de crimes como escravidão, cárcere privado, regime abusivo de trabalho, enriquecimento ilícito, remessa ilegal de dinheiro, corrupção de menores, tráfico de mulheres, fraude e coação e exploração do lenocínio, Assinalando o Serviço, ainda, a suspeita do assassinato de uma mulher.


Pouco depois, porém, uma enxurrada de manifestações de apoio, assinadas por intelectuais, líderes religiosos e simpatizantes, chegou ao MRE vinda dos Estados Unidos. Pressões foram feitas também pela cúpula da Igreja, cujo presidente norte-americano, Mose Durst, procurou em setembro de 1981 o diplomata brasileiro, Carlos Calero Rodrigues, para expressar “preocupação ante os atos de violência popular praticados contra a Seita Moon no Brasil”, manifestando a impressão que as autoridades “não haviam feito quanto seria necessário para impedir ou controlar a violência”.


Ao mesmo tempo, a população cobrava ações do governo. Um certo Paulo César da Cunha, por exemplo, chegou a escrever para João Figueiredo em agosto de 1981 perguntando “Onde estão as garantias às famílias brasileiras dadas pela revolução de 64 à qual vossa excelência, meu avô e meu pai tomaram parte?”, exigindo providências do SNI e dos DOPS. Ousado, prosseguia com ironia e caixas altas: “Na hora de derrubarem um governo CONSTITUCIONAL, a coisa foi rápida e bem feita”, pedindo o fechamento da Igreja da Unificação no espaço de uma semana. Afinal “O presidente João Goulart não foi deposto em apenas 24 horas?”.


O DOPS, todavia, se ocupou do caso. Conforme o jornal Folha da Tarde, porém, o delegado Romeu Tuma já iniciou os trabalhos alegando ter informações de que, a exemplo do que acontecera com outra organização conservadora, a Tradição Família e Propriedade, a Igreja poderia estar sendo alvo da “fúria de setores esquerdistas”, não passando os fatos brasileiros de “repetições do que já aconteceu em outros países, especialmente depois que o ditador cubano Fidel Castro declarou ver naquele movimento religioso-filosófico o único inimigo, em termos ideológicos, que lhe causa temor”.


A ditadura, assim, se fez de surda às vozes populares, aparecendo de forma cristalina em outros documentos sua opinião final sobre a Igreja. A DSI do Ministério da Justiça, em papel entregue ao ministro em novembro de 1981, concluía não haver “qualquer comprovação efetiva de utilização de métodos perniciosos de arregimentação de adeptos”. Prosseguindo mais incisivamente o seu parecer favorável, afirmava que, além de ser juridicamente inatacável a permanência da Igreja, importava o fato de ela “lutar abertamente contra o comunismo internacional”, ação pela qual “se apresenta como um meio para pôr em equilíbrio a balança já há muito desnivelada pela atuação das Organizações Subversivas”. Outro papel, agora um documento confidencial do SNI, relatando a realização da II Convenção Pan-americana da CAUSA Internacional, em São Paulo em julho de 1985, conclui que a CAUSA “constitui-se, efetivamente, em um dos obstáculos que se antepõem à expansão do comunismo”. Ainda em mais um papel confidencial, o SNI expôs que em 1986 a “campanha” contra a Igreja teria amainado consideravelmente, rotulando os fatos de 1981 de “um verdadeiro “pogrom”’ promovido por “setores tidos como “esquerdistas” inseridos na direção da Rede Globo de Televisão”.


Dessa forma, o Estado brasileiro abraça a tese exposta em 1981 pela própria Igreja nas páginas de sua revista, que atribuía tais eventos a ““patrulhas ideológicas” da extrema-esquerda”. Advogava ainda o SNI que “no que tange ao aspecto ideológico, pode-se afirmar que a pregação desenvolvida pela Causa no País em muito contribui para robustecer as convicções nacionalistas, religiosas e democráticas”, que a “denúncia sistemática do caráter insidioso e deletério de ideologias antidemocráticas e espúrias, como o comunismo, que faz parte do cotidiano de atividades desenvolvidas pela Causa” “fortalece o nível de conscientização político-ideológica da população, aprimorando, destarte, suas defesas imunológicas à propaganda marxista-leninista”.


A mão amiga da ditadura


Os planos unificacionistas para angariar a simpatia de setores conservadores brasileiros deram frutos, confessando o SNI, ainda em 1981, haver uma “grande adesão ao movimento”, por “elementos radicais, extremistas da direita”. O Serviço notava mesmo ser possível estabelecer ligações entre ele e “atentados sofridos por Bancas de Jornais, revenda de órgãos comunistas ou subversivos”, tendo ouvido, por “retalhos de conversas”, menções inclusive a grupos neonazistas, como a Guarda Verde-Amarela.

Já a amenidade da relação entre a ditadura e a Igreja da Unificação, mostra-se de maneira clara também no trânsito de colaboradores do regime nos eventos promovidos pela última.


No Brasil, o primeiro deles parece ter sido o Seminário Novas Ideias para uma Sociedade em Crise, no Rio de Janeiro em agosto de 1981, ocorrendo sob os auspícios da CAUSA Internacional nos hotéis Othon Palace e Nacional. Matéria publicada pelo jornal O Globo em 15 de agosto de 1981 destacava algumas presenças, como Ronald James Watters, ex-funcionário do Ministério da Agricultura investigado pelo atentado que matou Lyda Monteiro da Silva, secretária da OAB, em agosto de 1980. Teria ele sido convidado pelo general Antônio Adolfo Manta, presidente da Rede Ferroviária Federal no governo Médici e membro da extinta organização anticomunista Ação Democrática Renovadora - ADR.


A matéria figura em dossiê da DSI do MRE, que guarda também texto do Jornal do Brasil de 14 de agosto acrescentando que, além de Manta, pelo menos outros dois generais apareceram. Evento tão sigiloso que aos próprios funcionários do hotel fora dito se tratar “de um congresso de dentistas”, informando o JB que a imprensa apenas tomara ciência dele por um folheto encontrado no lixo.


O fato, entretanto, não escapou do radar do SNI, que registrou em relatório, parte de outro dossiê, que o encontro no Othon foi precedido de mais um, em julho de 1981, no Hotel Nacional, para o qual foram convidados sobretudo dirigentes universitários. Ao lado deles, encontramos alguns religiosos, empresários e funcionários da ditadura.


Conforme o SNI, ali estiveram Alcino Teixeira de Mello, do Conselho Superior de Censura; Aldo Medeiros, assessor da Secretaria da Saúde e Bem Estar Social do Paraná; Benedito O. R. Nogueira de Sá, procurador-chefe do Departamento Jurídico da Prefeitura de Taubaté; Domingos de Macedo Custódio, assessor cultural da prefeitura de São José dos Campos; Hilário Rosa, secretário do Conselho Municipal de Educação de Bauru; Icleia M. Pereira Netto, chefe do Departamento de Apoio Técnico da Secretaria Estadual de Educação do Espírito Santo; Oswaldo Alves Beraldo, chefe da Divisão de Fiscalização da Delegacia da Receita Federal de Taubaté; Paulo Alves da Silva, assessor político-legislativo do Ministério da Previdência e Assistência Social; e Saturnino Dadam, deputado em Santa Catarina. Além deles, destacou-se José Antônio de Vasconcelos Costa, presidente da Empresa de Águas Minerais de Minas Gerais S. A. - Hidrominas, membro do Departamento jurídico da Companhia de Distritos Industriais de Minas, e político pela ARENA e PDS.


A eles foi distribuído material de teor anticomunista, como o papel Introdução ao Unificacionismo - CAUSA Internacional, que sintetizava as contrapropostas da Igreja ao materialismo histórico. Advertindo ter chegado “o momento do mundo cristão tomar a ofensiva”, apresentava-se o unificacionismo como “um sistema ideológico” capaz de acelerar a bancarrota do comunismo.

Já o segundo encontro, no Hotel Othon, conforme o SNI tivera a mesma preocupação na segurança e sigilo. Quanto aos presentes, infelizmente não há maiores informações, sendo provável, contudo, que ambos os encontros tenham se tratado de um mesmo evento, dividido em locais diferentes.


Ainda em 1981, documento da DSI do MRE figurando em amplo dossiê informa que Nuno Linhares Velloso, chefe da Divisão de Assuntos Políticos da ESG, e Antonio Aggio Junior, editor do jornal Folha da Tarde, atenderiam à IV World Media Conference, evento sobre o papel da mídia no combate ao comunismo, em outubro daquele ano em Nova Iorque. Os convidados teriam suas despesas pagas pela News World Communications Inc., empresa de Sun Myung Moon, que, segundo o papel, também convidara diplomatas brasileiros nos Estados Unidos. O dossiê traz ainda outro texto, da embaixada do Brasil em Seul em novembro de 1982, mencionando a realização da V World Media Conference, com intelectuais, jornalistas e autoridades de 74 países, sendo o Brasil representado novamente por Antonio Aggio Junior e Nuno Linhares Velloso, agora ao lado do membro do DOPS, Carlos Antonio Guimarães.

O dossiê traz também informe do SNI de dezembro de 1982, cobrindo um Seminário de Filosofia e Teologia para Professores Universitários em Canela - RS promovido pela Associação Internacional Cultural, outra subsidiária da Igreja da Unificação, alegando que Clóvis Oliveira, delegado que investigou a Igreja em inquérito sobre aliciamento de menores, foi um “convidado especial”.

Também é ilustrativo da colaboração entre os unificacionistas e a ditadura o caso do Colegiado Acadêmico para a Reflexão de Princípios – CARP. A genealogia das entidades subsidiadas pela Igreja da Unificação é labiríntica, marcada por mudanças de nomenclaturas e sigilo, daí a dificuldade em rastreá-las. A documentação do Estado brasileiro, entretanto, permite-nos remontar as origens do CARP até finais dos anos 1970 ou inícios dos anos 1980, quando passa a funcionar no Brasil a Associação Internacional de Vitória sobre o Comunismo – AIVICO, que, depois de inúmeras mudanças de nome, viria a atender como CARP após 1985.

Dedicado à organização do meio estudantil em torno de ideias pró-capitalistas, o CARP realizava publicações, simpósios, e patrocinava atividades culturais e esportivas, além de publicar o Informativo CARP, a CARP Magazine e o jornal Tribuna Universitária. Inicialmente editada em algum momento de 1983, chegando a cem mil exemplares em 1985, a Tribuna tinha a colaboração de um dos maiores nomes do regime de 1964, o general Jarbas Passarinho, contando ainda com a contribuição de outros funcionários estatais não diretamente ligados à ditadura, como o membro do Ministério Público e futuro governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho.


Pelo que foi dito, não causa espanto fato ocorrido em oito de julho de 1981, evidência de favorecimento da Igreja pela ditadura. Em dossiê da DSI do MRE, encontramos relatório descrevendo ligação telefônica de um coronel Thompson, membro da Agência Central do SNI, para um funcionário da DSI identificado apenas como “Adolpho”. Avisava o coronel sobre o envio de informações sobre conferência da CAUSA Internacional para a qual alguns participantes pediam visto de entrada, manifestando o coronel que a posição da Agência “é favorável à vinda dos coreanos e há interesse em que os vistos sejam concedidos”. Por outro lado, a mesma folha registra que Thompson falou também sobre pedido similar de atores cubanos para a participação em um festival de teatro. Para este caso, no entanto, “O Gal. Newton pediu que telefonasse pare você, declarando que o ponto-de-vista da AC é o de negar o visto para qualquer cubano”. Trata-se do general Newton Cruz, chefe da Agência Central do SNI entre 1977 e 1983.


A Igreja da Unificação e a redemocratização


O fim da ditadura em princípios de 1985 não encerrou a presença unificacionista no Estado brasileiro, preservada com a cooptação de políticos e o financiamento de candidaturas. Documento do SNI, com um balanço de eleitos no pleito de 1986 apoiados por igrejas, revela que a organização financiara 27 deputados federais, preferindo manter os seus nomes em sigilo, “pela má fama que a seita possui”. Outro relatório do SNI, entretanto, revela alguns dos apoiados pela CAUSA Brasil: Fausto Auromir Lopes Rocha, do PFL, José Maria Eymael, do PDC, Herbert Vítor Levy, do PSC e Guilherme Afif Domingos, do PL. Uma das metas da organização para o “futuro próximo”, inclusive, seria a construção de “uma frente partidária envolvendo pequenas agremiações políticas como o PMB, PSC, PDC, PPB e outras que têm afinidade com os principais suportes da doutrina defendida pela Causa: o nacionalismo e o anti-comunismo”. Talvez não por acaso, portanto, alguns desses partidos tenham tido a preferência de muitos candidatos da bancada evangélica. O PDC, por exemplo, elegeu em 1986 e em 1990 dois membros dessa bancada; enquanto o PPB emplacou sete membros em 1998.


Ao mesmo tempo, a Igreja não deixou de cultivar a proximidade com setores armados, notando o SNI em 1986 que a CAUSA Brasil “tem feito esforço no sentido de aproximar-se de jovens oficiais do Exército, da Polícia Militar, dos delegados da Polícia Civil e Polícia Federal, de integrantes da Comunidade de Informações, além de políticos e pessoas influentes”. Na mesma direção, outro documento do SNI, desta vez de 1987, relata visita de unificacionistas ao Sétimo Comando Aéreo Regional, em Manaus, deixando folhetos informativos e solicitando permissão para realizar ali uma conferência da CAUSA Brasil. Sem revelar se a conferência de fato ocorreu, o papel conclui que a iniciativa “pode ser entendida como uma tentativa de buscar a simpatia de militares para as atividades desse movimento”, posto que “o conhecido espírito anticomunista do contingente militar brasileiro vai ao encontro dos preceitos de oposição ao marxismo propagados pela Associação”.


A redemocratização, assim, não implicou num arrefecimento das atividades da CAUSA, que prosseguiu flertando com parcelas sociais influentes, como membros do governo, muitos dos quais ex-colaboradores da ditadura. Fato visível, conforme informações do Centro de Informações da Aeronáutica - CISA, no Seminário Introdutório à Causa Brasil, em maio de 1985 em Belo Horizonte. Girando a programação em torno dos temas anticomunistas habituais, o evento foi aberto pelo coronel da Polícia Militar e dirigente da CAUSA Rubens José Ferreira, conforme o SNI participante do golpe de 1964, que alertou sobre a urgência em se ampliar o combate ao comunismo diante do fim da ditadura. Já Benedito Honório da Silva, assessor chefe da Assessoria de Segurança e Informações do MEC e assistente da Procuradoria Geral da Paraíba, proferiu a palestra “Comunismo x Mundo Livre”, cabendo o encerramento ao general José Lopes Bragança, que falou sobre seu trabalho nos serviços de informação do regime. Não há uma listagem da plateia, mas o CISA sublinhou a presença do deputado Bonifácio José Tamm de Andrada, “entusiasmado pelas propostas da “CAUSA”’.


Em fevereiro de 1986 a CAUSA realiza no Rio de Janeiro um encontro restrito a vinte pessoas, entre militares, professores e assessores parlamentares, além de políticos como Álvaro Valle, do PFL, e Heitor Furtado, do PDS, ambos, segundo o Comando Militar do Leste, membros da CAUSA Brasil. Integrantes da ESG também foram convidados, embora não tenham comparecido. Novamente, as conferências focaram-se na crítica marxista, notando-se que a “mensagem final” dos palestrantes foi a conclamação para “a mobilização e conscientização das elites, normalmente detentoras do capital, para que apoiem e lutem em todos os campos de atividades contra o “comunismo ateu”’.


Em setembro de 1986, em Boa Vista, a CAUSA Brasil convidava “autoridades políticas, religiosas e militares, empresários e profissionais liberais” para o congresso Introdução ao Deusismo. Vangloriava-se a organização de origem coreana sediada nos Estados Unidos de levar sua doutrina “a todos os brasileiros patriotas, que amam sua pátria e a querem livre e próspera”.


Em julho de 1987 a organização realiza, em São Paulo, o seminário Em Busca de Uma Nova Ideologia, onde o deputado federal Marcelino Romano Machado, do PDS, falou para aproximadamente oitenta pessoas, segundo o SNI “em sua maioria delegados de polícia, políticos e pastores evangélicos”. Repetindo a temática anticomunista habitual, o evento teve ainda palestras do deputado federal pelo PDS, Paulo Osório, e do diplomata José Oswaldo de Meira Penna.


O último vestígio das atividades da Igreja da Unificação é um relatório de 1996 da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República sobre mais um encontro na capital uruguaia, com a frequência inclusive de membros da Igreja Universal do Reino de Deus. É dito ainda que os unificacionistas preparavam um grande evento em Goiânia, onde dois importantes representantes seriam os pastores Romilton Amaral e Paulo Carvalho, este último um ‘“ponta-de lança” dos negócios empresariais” unificacionistas.


Conclusão


Em princípios de 1998, a Igreja da Unificação passou a se chamar Associação das Famílias para Unificação e Paz Mundial. Ainda no final da década, o reverendo Moon, morto em 2012, teria feito investimentos agropecuários e comprado largas porções de terra no Mato Grosso. As atividades atuais da organização, entretanto, mantêm-se sigilosas, tal como os encontros dos anos 1980, que nos chegam apenas através da documentação dos órgãos de espionagem estatais. Não é possível, por exemplo, encontrar na internet informações atuais sobre nenhuma das entidades estudadas acima. A própria Associação das Famílias para Unificação e Paz Mundial não tem pum portal eletrônico, mantendo apenas um pouco informativo perfil no Facebook.


A documentação mostra de maneira inequívoca, contudo, a efetivação de um profundo processo de enraizamento da Igreja da Unificação no Estado brasileiro, facilitado pela ditadura de 1964 e preservado após a redemocratização. É plausível, portanto, que a organização mantenha sua influência política nos dias de hoje, bem como sua função de apoio à hegemonia capitalista. O mesmo podendo ser dito sobre o restante da América Latina.



*Rodrigo de Sá Netto é doutor em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Trabalha como Técnico em Assuntos Culturais no Arquivo Nacional, lotado no Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil (1964-1985) – Memórias Reveladas. Também pelo Arquivo Nacional, lançou os Cadernos MAPA (Memória da Administração Pública Brasileira) - A Secretaria de Estado dos Negócios do Império (1823-1891) e O Império Brasileiro e a Secretaria de Estado dos Negócios da Justiça. Atualmente desenvolve pesquisas sobre o imperialismo estadunidense e suas conexões com organizações religiosas conservadoras daquele país.


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